Entenda o fator de corte de 1.5x, a compatibilidade real entre corpo e lente, e em que situação cada formato vale o dinheiro.
Numa das aulas do curso, um aluno pegou emprestada uma D780 de quadro completo e montou nela a lente que ele já tinha, uma AF-S DX 35mm f/1.8G. Disparou, olhou o visor e me chamou preocupado: as quatro pontas da foto tinham saído pretas, como se alguém tivesse desenhado um círculo escuro em volta da imagem. Não era defeito. Era física. Ele acabava de descobrir, na marra, a diferença entre uma lente DX e uma lente FX.
Se você fotografa com Nikon e já se embaralhou com essas duas letrinhas, este texto é para você. A pergunta que mais aparece não é “o que é DX e FX” no sentido de sensor, e sim a prática: que lente eu compro? Uma DX mais barata serve no meu corpo? Se eu subir para quadro completo depois, perco tudo?
Você vai entender aqui:
- O que separa de verdade uma lente DX de uma FX (não é só preço)
- O que o fator de corte de 1.5x faz com o seu enquadramento
- As quatro combinações de corpo e lente, e o que acontece em cada uma
- Quando o formato DX é a escolha mais esperta, e quando é armadilha
A resposta rápida
Lente FX cobre o sensor grande de quadro completo (36x24mm) e funciona nos dois mundos: em corpo FX e em corpo DX. Lente DX foi desenhada para o sensor menor (cerca de 24x16mm) e projeta um círculo de imagem menor, só o suficiente para o APS-C.
A regra que resolve 90% das dúvidas: se você pretende migrar para quadro completo algum dia, invista em lentes FX desde já, mesmo usando um corpo DX. Elas te acompanham na subida. Já as lentes DX são mais leves, mais baratas e ótimas se você vai ficar no APS-C, mas viram peso morto num corpo FX, que corta a imagem e devolve menos resolução para você. Foi o que aconteceu na aula: a 35mm DX no corpo grande vinhetou porque a lente simplesmente não “enxerga” o sensor inteiro.
O que DX e FX querem dizer, sem enrolação
DX e FX são, antes de tudo, tamanhos de sensor. O FX tem o tamanho de um quadro de filme 35mm, aqueles 36x24mm de sempre. O DX é o formato APS-C da Nikon, um retângulo bem menor, com pouco mais da metade da área.
Por que isso importa para a lente? Porque toda objetiva projeta um círculo de luz atrás dela, o chamado círculo de imagem. A lente FX projeta um círculo largo, calculado para banhar o sensor grande inteiro. A lente DX projeta um círculo apertado, do tamanho certo para o sensor pequeno e nem um milímetro a mais. Colocar uma lente DX num corpo FX é tentar cobrir uma mesa de jantar com uma toalha de mesa de canto: sobra mesa nas beiradas. Aquelas pontas pretas.
Ao contrário, uma lente FX num corpo DX cobre tudo com folga. O sensor pequeno usa só o miolo do círculo de imagem, a parte mais nítida da lente, e descarta o resto. Não vinheta, não dá problema. Só muda o enquadramento, e é aí que entra o famoso corte.
O fator de corte de 1.5x: o que ele realmente faz
Esse é o ponto que mais confunde, então vou com calma. A Nikon DX tem fator de corte de 1.5x. Isso não muda a lente. Uma 50mm continua sendo uma 50mm, com as mesmas propriedades ópticas, no corpo que for. O que muda é o campo de visão: quanto de cena cabe no quadro.
Como o sensor DX é menor, ele registra só o pedaço central da imagem que a lente projeta. O resultado visual é o mesmo de uma foto mais “fechada”, mais aproximada. Para calcular o equivalente em quadro completo, você multiplica a distância focal por 1.5.
Na prática:
- Uma 50mm num corpo DX enquadra como uma 75mm enquadraria num FX
- Uma zoom 24-70mm vira o equivalente de 36-105mm em campo de visão
- Uma tele 200mm entrega o alcance visual de uma 300mm
- Uma 300mm chega perto de uma 450mm
Repare que isso é péssimo para grande-angular e ótimo para teleobjetiva. Se você comprou uma 24mm sonhando com paisagem aberta e montou num corpo DX, ela enquadra como 36mm, e some boa parte daquela amplidão que você queria. É por isso que existem lentes DX de grande-angular extrema, como a AF-P DX 10-20mm: os 10mm dela viram uns 15mm equivalentes, que já é uma abertura de cena decente. Uma FX raramente desce tanto sem custar caro.
Do outro lado, o corte é presente de Natal para quem fotografa esporte e vida selvagem. Montei uma 70-200mm f/2.8 numa D7500 para fotografar futebol de várzea e, sem trocar de lente, ganhei o alcance de uma 300mm de graça, só pela conta do sensor. Aproximei jogadas do outro lado do campo que a mesma lente num corpo FX não alcançaria.
Por que o quadro completo brilha na luz baixa
Aqui entra a parte que não aparece na tabela de especificação, mas você sente no arquivo. O sensor FX, por ser maior e ter em geral pixels maiores (os tais “baldes de luz”), coleta mais informação em pouca luz. Isso se traduz em menos ruído em ISO alto e mais faixa dinâmica, aquele espaço entre o preto mais fundo e o branco mais claro que a foto consegue segurar sem perder detalhe.
Foi o motivo de a Nikon criar o formato FX lá atrás. A primeira DSLR Nikon de quadro completo, a D3, chegou com apenas 12,1 MP num momento em que a corrida de megapixels já ia longe. A ideia não era ter mais pixel, era ter pixel maior. E funcionou: aquela geração passou a enxergar em ambientes que antes eram território proibido para foto sem flash.
Isso muda a sua escolha de lente? Muda. Num corpo DX, você vai depender mais de lentes de abertura grande (f/1.8, f/2.8) para compensar em pouca luz, porque não pode subir tanto o ISO sem sujar a imagem. No FX, você tem mais folga.
As quatro combinações, uma a uma
Guarde este mapinha, resolve quase toda dúvida de compatibilidade na loja:
- Lente FX em corpo FX. O casamento ideal. Campo de visão real, sem corte, aproveitando o sensor todo. É para isso que a lente foi feita.
- Lente FX em corpo DX. Funciona perfeitamente. Você só ganha o corte de 1.5x no enquadramento. Boa notícia para tele, atenção redobrada para grande-angular.
- Lente DX em corpo DX. Também casa direitinho, e com a vantagem de peso e preço. É o combo natural de quem está começando ou quer viajar leve.
- Lente DX em corpo FX. A combinação problemática. O corpo detecta a lente DX e, para evitar as pontas pretas, corta sozinho a imagem para o formato DX. Numa D850 de 45,7 MP, isso derruba o arquivo para uns 19 MP. Você comprou quadro completo e está usando um pedaço dele.
Ou seja: a lente FX é a única que atravessa todos os cenários sem perda. Essa é, no fundo, a razão de eu recomendar vidro FX para quem tem plano de crescer.
O que eu comprei errado (para você não repetir)
Vou confessar um dinheiro jogado fora. Quando eu ainda fotografava só com corpo DX, comprei uma grande-angular DX ótima para paisagem, leve e barata. Usei muito, sem reclamar. O problema veio quando subi para um corpo FX: aquela lente que eu adorava passou a cortar a imagem e a entregar menos da metade da resolução do sensor novo. Na prática, ela virou uma lente inútil no equipamento que eu tinha acabado de comprar. Tive que vender por uma fração do preço e comprar uma FX equivalente, gastando duas vezes pela mesma função.
A lição que passo hoje no curso: se você sabe que vai ficar no DX por bons anos, compre DX sem culpa, é dinheiro bem gasto em lente leve e acessível. Mas se existe a menor intenção de migrar, morda o custo maior e compre FX logo de cara. Sai mais barato do que comprar duas vezes.
Vale um adendo. Essa mesma lógica de DX e FX seguiu para o sistema mirrorless da Nikon, o de montante Z: ali também há lentes Z DX, para os corpos APS-C, e lentes de quadro completo, que servem nos dois. Muda o encaixe, mas o raciocínio do círculo de imagem e do fator de corte é o mesmo. Aprendeu aqui, aprendeu para os dois mundos.
Perguntas frequentes
Posso usar lente DX em corpo full frame Nikon?
Pode montar, mas o corpo vai cortar automaticamente para o formato DX para evitar as bordas pretas, reduzindo a resolução do arquivo. Funciona como quebra-galho, não como escolha ideal. Se quer aproveitar o sensor grande inteiro, use lente FX.
A lente DX estraga a imagem no corpo FX?
Não estraga qualidade dentro da área usada, mas te obriga a usar só um recorte do sensor. Você perde megapixels e o campo de visão amplo que pagou ao comprar o quadro completo.
O fator de corte de 1.5x muda a distância focal da lente?
Não. A distância focal é uma propriedade física da lente e não se altera. O que muda é o campo de visão: uma 50mm no DX enquadra como uma 75mm no FX, mas continua sendo, opticamente, uma 50mm.
Para quem está começando, vale a pena já comprar lente FX?
Depende do plano. Se o orçamento é curto e você vai ficar no APS-C por um tempo, uma boa DX de abertura f/1.8 rende muito e pesa pouco. Se já sabe que quer chegar ao quadro completo, compre FX desde a primeira lente séria e evite pagar duas vezes.
Lente FX perde qualidade num corpo DX?
Pelo contrário. O sensor DX usa só o miolo do círculo de imagem, que costuma ser a região mais nítida e com menos distorção da lente. Você só passa a conviver com o corte de 1.5x no enquadramento.
Conclusão: a escolha depende do seu plano, não da moda
Não existe formato melhor no vácuo. Existe o formato certo para o que você fotografa e para onde quer chegar.
Se você faz esporte, natureza ou qualquer coisa que peça alcance, o corte de 1.5x do DX é um aliado que aproxima o assunto sem você gastar em teleobjetiva gigante. Se você vive de retrato em pouca luz, paisagem aberta ou casamento em igreja escura, o quadro completo e as lentes FX vão te dar a limpeza de ISO e a amplitude que o DX cobra caro.
O próximo passo prático é honesto e simples: antes de comprar a próxima lente, decida se você vai ficar no APS-C por pelo menos três ou quatro anos. Se sim, uma DX resolve e sobra dinheiro para luz e cartão. Se a resposta for “talvez eu suba”, compre FX agora e durma tranquilo. A lente que atravessa os dois formatos é sempre a que você não vai precisar comprar de novo.
Carlos Rincon é fotógrafo e professor de fotografia na Pixelpró Campinas. Os exemplos deste artigo vêm de sessões e testes reais em corpos Nikon DX e FX.